Representação barroca das ruínas do mundo contemporâneo
Maria do Carmo O. M. Santos
(...) A seqüência
de nomes, estrategicamente, torna-se economia de palavras, deixando lacunas
para que o leitor atento e, usando o método de montagem, possa vislumbrar a
cidade. As lacunas, os espaços brancos e
os cortes na narrativa alegorizam, além da incapacidade do ser humano de se
sentir inteiro no meio urbano, a incapacidade da linguagem de expressar o
sentimento do homem nesse espaço multifacetado. As alegorias urbanas, na obra,
são concebidas sob o olhar crítico do autor implícito que as percebe pelas
ruínas, pelos cacos selecionados. O texto, pautado nas minúcias do cotidiano,
aparentemente simples, retrata as condições precárias da vida urbana de seus
personagens, convertendo a cidade numa alegoria dos vícios sociais. Assim, na
acepção benjaminiana, os contrastes vivenciados numa metrópole possibilitam ver
na alegoria sua fundamental característica: a ruína, os destroços.
Na
escritura, os textos polifônicos remetem à pluralidade barroca, caracterizada
pela multiplicidade de personagens e pelos diversos discursos que perpassam
toda a obra. Ricos, pobres, miseráveis, prostitutas, magnatas: vozes que se
imbricam num rebuscamento textual, marcando a polifonia. Nessa perspectiva, a
narrativa se faz flutuante pelas oscilações vocais e pela constante mudança do
foco narrativo, de primeira a terceira pessoa e vice-versa, ilustrando o
movimento percebido nas artes barrocas.
Os
múltiplos elementos constitutivos do cotidiano e a estratégia usada de
narrá-los indiscriminadamente, um ao lado do outro, representam o caos urbano.
Alegoricamente, a coleta desses elementos e a disposição de anúncios de
jornais, menu gastronômico, descrição de ambientes, relação de objetos
observados, orações, textos vários, inseridos no meio dos episódios, traduzem a visibilidade social caótica do
espaço urbano. O próprio deslocamento desses elementos, fazendo-os aparecer
fora de seu contexto, possibilita interpretações alegóricas.
Porém, toda
a fragmentação encontrada na superficialidade do conturbado mundo da cidade
grande, espaço híbrido de personagens e de objetos, resume-se quase no final da
obra a uma página preta, fazendo do silêncio um recurso de linguagem.
Subversivamente, não uma página branca, que poderia remeter ao vazio, mas a
página preta, que faz lembrar as infinidades de histórias ainda não contadas.
Diante dessa página, o leitor sente-se incomodado, tentando abri-la, pois, dentro dela, muitos outros
elementos ou personagens, ainda no anonimato, se escondem, alegoricamente
elegendo a cidade como um espaço plural e excludente ao mesmo tempo.
Assim,
diante de todo o realismo social, emerge
o rebuscamento como revelação do conflito, o que realça as contradições do
espaço urbano. A linguagem paradoxalmente simples e rebuscada, com a mistura de
narrativas carregadas de neologismo ao lado da oralidade ou dos verbetes
eruditos; os jogos de palavras, a brincadeira com o grafismo e a subversão da
pontuação compõem o barroco benjaminiano presente em eles
eram muitos cavalos. Ressalta-se que o contraponto dessa aproximação seria
o tom salvacionista no pensamento de Benjamin, que deixa entrever no seu discurso
uma possibilidade de um mundo futuro
desalienado e redimido. Mesmo que, muitas vezes, o processo de escrita possa
ser interpretado como uma esperança de remissão, isto não fica claro no mundo
caótico de fragmentos irreconciliáveis da sociedade contemporânea, descrito por
Ruffato.
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