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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Artigo I (fragmentos consistentes)


Representação barroca das ruínas do mundo contemporâneo

Maria do Carmo O. M. Santos

(...) A seqüência de nomes, estrategicamente, torna-se economia de palavras, deixando lacunas para que o leitor atento e, usando o método de montagem, possa vislumbrar a cidade.  As lacunas, os espaços brancos e os cortes na narrativa alegorizam, além da incapacidade do ser humano de se sentir inteiro no meio urbano, a incapacidade da linguagem de expressar o sentimento do homem nesse espaço multifacetado. As alegorias urbanas, na obra, são concebidas sob o olhar crítico do autor implícito que as percebe pelas ruínas, pelos cacos selecionados. O texto, pautado nas minúcias do cotidiano, aparentemente simples, retrata as condições precárias da vida urbana de seus personagens, convertendo a cidade numa alegoria dos vícios sociais. Assim, na acepção benjaminiana, os contrastes vivenciados numa metrópole possibilitam ver na alegoria sua fundamental característica: a ruína, os destroços.
Na escritura, os textos polifônicos remetem à pluralidade barroca, caracterizada pela multiplicidade de personagens e pelos diversos discursos que perpassam toda a obra. Ricos, pobres, miseráveis, prostitutas, magnatas: vozes que se imbricam num rebuscamento textual, marcando a polifonia. Nessa perspectiva, a narrativa se faz flutuante pelas oscilações vocais e pela constante mudança do foco narrativo, de primeira a terceira pessoa e vice-versa, ilustrando o movimento percebido nas artes barrocas.
Os múltiplos elementos constitutivos do cotidiano e a estratégia usada de narrá-los indiscriminadamente, um ao lado do outro, representam o caos urbano. Alegoricamente, a coleta desses elementos e a disposição de anúncios de jornais, menu gastronômico, descrição de ambientes, relação de objetos observados, orações, textos vários, inseridos no meio dos episódios,  traduzem a visibilidade social caótica do espaço urbano. O próprio deslocamento desses elementos, fazendo-os aparecer fora de seu contexto, possibilita interpretações alegóricas.
Porém, toda a fragmentação encontrada na superficialidade do conturbado mundo da cidade grande, espaço híbrido de personagens e de objetos, resume-se quase no final da obra a uma página preta, fazendo do silêncio um recurso de linguagem. Subversivamente, não uma página branca, que poderia remeter ao vazio, mas a página preta, que faz lembrar as infinidades de histórias ainda não contadas. Diante dessa página, o leitor sente-se incomodado, tentando  abri-la, pois, dentro dela, muitos outros elementos ou personagens, ainda no anonimato, se escondem, alegoricamente elegendo a cidade como um espaço plural e excludente ao mesmo tempo.

            Assim, diante de todo o realismo social,  emerge o rebuscamento como revelação do conflito, o que realça as contradições do espaço urbano. A linguagem paradoxalmente simples e rebuscada, com a mistura de narrativas carregadas de neologismo ao lado da oralidade ou dos verbetes eruditos; os jogos de palavras, a brincadeira com o grafismo e a subversão da pontuação compõem o barroco benjaminiano presente em  eles eram muitos cavalos. Ressalta-se que o contraponto dessa aproximação seria o tom salvacionista no pensamento de Benjamin, que deixa entrever no seu discurso uma possibilidade  de um mundo futuro desalienado e redimido. Mesmo que, muitas vezes, o processo de escrita possa ser interpretado como uma esperança de remissão, isto não fica claro no mundo caótico de fragmentos irreconciliáveis da sociedade contemporânea, descrito por Ruffato.

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